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Cultura

Vale do Café celebra 70 anos de Mestra Fatinha e encontro dos Jongos

Os festejos dos 70 anos de Maria de Fátima da Silveira Santos, a Mestra Fatinha, estão entrelaçados à comemoração do Dia Estadual do Jongo, com a realização do 5º Encontro dos Jongos do Vale do Café, no Parque das Ruínas de Pinheiral, no sul fluminense.  O evento reunirá neste sábado (25) 450 lideranças de 18 quilombos e comunidades tradicionais de jongo dos estados do Rio de Janeiro e de São Paulo. Para a matriarca, essa reunião reafirma a cultura dos ancestrais e ocorre em um local simbólico. 

Fonte: Cristina Indio do Brasil - Repórter da Agência Brasil25 de julho de 2026 às 18:487 visualizações
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Vale do Café celebra 70 anos de Mestra Fatinha e encontro dos Jongos
Foto: Agência Brasil

Os festejos dos 70 anos de Maria de Fátima da Silveira Santos, a Mestra Fatinha, estão entrelaçados à comemoração do Dia Estadual do Jongo, com a realização do 5º Encontro dos Jongos do Vale do Café, no Parque das Ruínas de Pinheiral, no sul fluminense. 

O evento reunirá neste sábado (25) 450 lideranças de 18 quilombos e comunidades tradicionais de jongo dos estados do Rio de Janeiro e de São Paulo. Para a matriarca, essa reunião reafirma a cultura dos ancestrais e ocorre em um local simbólico. 

Nas duas áreas do Parque das Ruínas de Pinheiral cedidas pela Prefeitura de Pinheiral, a organização Centro de Referência de Estudo Afro do Sul Fluminense (Creasf), criada pelas lideranças jongueiras do Pinheiral, vem desenvolvendo atividades para levar adiante suas origens.

Ali também estava São José dos Pinheiros, uma das maiores fazendas de café na época do Brasil colônia, onde viveram mais de 3 mil negros escravizados. “A gente herdou essa tradição deles, e a gente mantém. São vários núcleos de jongueiros de várias famílias”, explica Mestra Fatinha. 

Resistência

Dos anos vividos, em 50 deles a matriarca permaneceu à frente da luta e da resistência para a preservação da cultura negra na região do Vale do Café, no sul fluminense.

“O jongo é a verdadeira bandeira de luta do povo preto, porque os negros escravizados usavam o jongo para se organizar, namorar, cantar a saudade da África, para cultuar os orixás.”

Mestra Fatinha conta que o movimento negro entre o Rio e São Paulo era muito forte no final dos anos 80, início dos 90, período em que iniciou a militância. O início da militância ocorreu no Clube Palmares – único clube social de negros do estado do Rio, em Volta Redonda, cidade vizinha de Pinheiral.

“Meus pais e avós sempre foram muito conscientes do que é ser negro nesse país. Na minha família sempre se trabalhou a cultura. Meu bisavô tinha corte de Moçambique [tradição de origem africana também chamado de cortejo ou congada], meu pai era jongueiro, sambista, músico, minhas tias cantavam, minha avó também. Minha mãe está com 93 anos e canta até hoje”, acrescentou.
 

Brasília (DF), 26/07/2025 - Reconhecimento do Jongo. Foto: Karen Eppinghaus/Divulgação
O jongo é a verdadeira bandeira de luta do povo preto, destaca Mestra Fatinha Karen Eppinghaus/Divulgação

Reconhecimento

A luta de Mestra Fatinha resultou na constatação do meio acadêmico ao seu trabalho pela preservação da cultura negra. 

“Ano passado a Universidade Federal Fluminense me concedeu o título de notório saber. Já estou dentro da UFF há mais de 10 anos fazendo Encontros de Saberes. É uma referência.”

O fato de os próprios negros poderem contar suas histórias é outro motivo de destaque. “Isso é muito importante, principalmente, para as crianças e adolescentes, por sermos essa referência e eles valorizarem a luta dos que vieram antes de nós.”

“Aqui no Vale do Café se trabalha muito a memória dos barões, e a gente vem fazendo a contramão contando a história do povo preto, porque o nosso povo é que construiu todo esse império”, completou.

Certificação

Segundo a matriarca, por causa do trabalho cultural feito pelo Jongo do Pinheiral a Fundação Palmares, no ano passado, certificou a região como comunidade quilombola e agora a intenção é prosseguir com processo no Incra para delimitação da área.

“É uma área histórica que vai dar mais visibilidade à nossa cultura e para a gente poder desenvolver com mais autenticidade tudo que a gente já faz.”

História

Em 2005, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) reconheceu o Jongo Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil. Também chamado de congo ou caxambu, segundo a Mestra Fatinha, é uma manifestação característica da Região Sudeste do Brasil. 

O costume continua sendo preservado por descendentes de pessoas escravizadas de origem Bantu, especialmente, do Congo, Angola e Moçambique, que foram trazidas para trabalhar em lavouras de café e de cana-de-açúcar, nos estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais, São Paulo e Espírito Santo. 

Depois da abolição, o jongo desceu a serra e chegou aos morros cariocas pelas mãos de famílias que ajudariam a fundar as futuras escolas de samba.
 

Brasília (DF), 26/07/2025 - Reconhecimento do Jongo. Foto: Karen Eppinghaus/Divulgação
O jongo continua sendo preservado por descendentes de pessoas escravizadas de origem Bantu - Karen Eppinghaus/Divulgação

Agenda

O 5º Encontro de Jongos do Vale do Café é uma realização conjunta do Jongo de Pinheiral, Rede de Jongo do Vale do Café, do Instituto Floresta, da Rede de Patrimônio Imaterial do Estado do Rio de Janeiro e do Centro de Referência Afro do Sul Fluminense (CREASF), em parceria com a prefeitura de Pinheiral, dos ministérios da Igualdade Racial e da Justiça, do Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania (Pronasci) e do Museu Vassouras.

A programação continua amanhã (26), quando se comemora o Dia de Sant'Ana e o Dia Estadual do Jongo. Haverá procissão para a santa, mãe de Maria e avó de Jesus Cristo, sincretizada como Nanã nas religiões de matriz afro-brasileira, seguida de ladainhas em sua homenagem. A saída da procissão, que é uma tradição local com mais de 100 anos, será às 18h, na Casa do Jongo de Pinheiral.

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